quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Terra Una

Terra Una foi nossa primeira parada. Não foi fácil chegar, ou melhor, iniciar a viagem. Nosso plano era estar lá no domingo (2/10) mas só conseguimos pegar a estrada na 2ª. E depois do almoço, o que nos obrigou a dormir em Rezende.

No dia seguinte, já saindo de Rezende, nos demos conta de que não havíamos abastecido. Após alguma hesitação, retornamos para abastecer. Pra finalizar, atolamos uma vez e em outra tivemos a ajuda de um trator para passar por uma parte difícil da estrada. Chegamos apenas na 3ª.

Todos esses eventos, acredito, revelam o medo que havia, pelo menos em mim, desse início da viagem. Toda mudança mexe com cada qual. E eu temia uma vivência parecida com a que tivemos no início da nossa primeira viagem.

Terra Una é uma comunidade iniciada por amigos, muitos dos quais viviam no Rio de Janeiro há pouco mais de uma década. Eram jovens vivendo em casas coletivas, com muitas ideias e vontade de fazer diferente. E vem fazendo!

Encontraram essa terra enfiada no sul de Minas Gerais. As primeiras construções foram espaços coletivos de refeição e alojamento. Hoje já há pelo menos quatro casas de moradores e algumas outras em construção.


Lolo em frente ao refeitório e cozinha comunitários


Algumas casas de moradores

O casal que nos recebeu estava lá há pouco mais de um mês. São candidatos a viver na comunidade e, pelo que entendi, há um processo seletivo relativamente longo para que se adquira o direito de construir ali.

Conhecíamos um outro casal que se mudou pra lá há cerca de um ano com seus dois filhos unschoolers e que nos inspirou a ir e nos ajudou com as reservas.

Ficamos alojados na suíte, um quarto com cama de casal e beliche além de banheiro com pia e chuveiro apenas. Sim, pois os banheiros coletivos são secos, a maioria para o número 2. Somos incentivamos a fazer o número 1 ao ar livre, no mato.

Diferente do que eu imaginava, há poucas crianças vivendo ali. Atualmente são quatro, mas dão um bom caldo para brincar e se relacionar.

Na chegada estava apenas Iuri, de 6 anos, por quem Miguel imediatamente se encantou e a quem dedicou toda a sua lealdade pelo período em que estivemos lá. É tão interessante ver como se criam as relações entre crianças a partir do meu próprio filho. 

Vejo que há algumas crianças, em especial meninos, que ele elege para seguir, admirar, com quem quer estar o tempo todo. O que muitas vezes não é exatamente recíproco e lhe causa frustrações.

Mas aí está o aprendizado. Nas relações. No que sentimos. No que sentimos que o outro sente. Na forma como nossos sentimentos se encontram e se desencontram. O quanto mudamos nosso sentir e nossas atitudes a partir disso. Enfim, isso é viver, relacionar-se, aprender.

Os primeiros dias foram de muita tranquilidade e, claro, algum estranhamento interno. Uma busca interna por um lugar de estar, por entender as relações na comunidade e me colocar, me entender, entender meus sentimos em relação a mim, às novas pessoas com quem estava me relacionando e à nossa família.

Pude superar as dificuldades iniciais da viagem com rapidez. Não sem antes perder a paciência e a elegância com Miguel algumas vezes. Mas minhas mudanças de humores foram por mim rapidamente observadas, compreendidas e superadas, o que me deixou bastante animada.

Logo outros moradores chegaram e assim novas crianças: Luna, Henrique e Luíza completaram o time. Convivência, brincadeiras e conflitos foram o natural cardápio dessas novas relações para Miguel.

Lolo, por hora, é pura alegria vital, puro encantamento. Encanta-se e encanta às pessoas com seu jeito sorridente e saltitante.

Balanço pra dois no alto galho do eucalipto
Amor pelo pula-pula



Na trilha da cachoeira

Algumas das lideranças da comunidade organizam cursos chamados Gaia Education e a metade de nossa estadia por ali foi compartilhada com um grupo de pessoas que vieram para uma imersão nesse curso. E novas crianças chegaram: Maria e Maria Clara.

Foi perceptível a mudança no ambiente e nos hábitos. Se nos primeiros dias apenas algumas refeições eram compartilhadas e nos ocupamos do café da manhã e jantar de nossa família, agora, com o curso, todas as deliciosas refeições vegetarianas eram feitas em conjunto. Também pudemos nos voluntariar na cozinha e no cuidado das crianças.


Aguardando o rango


Algumes des cozinheires do dia

Se antes passamos vários momentos a sós, e pude estar exclusivamente com Miguel ou com Lolo, agora as crias estavam sempre juntas com outras e havia muitas pessoas para conhecer, conversar e trocar.

Com outras crianças visitantes

O clima esteve frio na maior parte do tempo, em especial nas noites, quando dormíamos com cobertores. A área, que antes era de pasto, está reflorestada, o que contribui para uma temperatura mais baixa. A maior parte do reflorestamento se deu por “inação”. Os moradores e proprietários simplesmente não atrapalharam a natureza. Como havia áreas com remanescentes de mata, a natureza fez o trabalho.

Há ali algumas hortas e plantações e muita interação com a comunidade do entorno que fornece alimentos orgânicos e mão de obra.

Foi um início de viagem auspicioso! E com muita alegria e gratidão (e alguns carrapatinhos adquiridos na cachoeira) nos despedimos.


Guiados por Henrique, chegamos à cachoeira

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