quinta-feira, 20 de outubro de 2016



Aimorés: Fazenda Bulcão


De Terra Una, em Liberdade, Sul de Minas, seguimos rumo a Aimorés, na Bacia do Rio Doce, na divisa de Minas com o Espírito Santo.

Desde o começo do ano, quando soubemos do projeto de reflorestamento da Fazenda Bulcão, herdada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, queríamos conhecer o Instituto Terra, organização criada por ele e por sua companheira para levar a cabo o projeto.

Demoramos três dias para chegar, com pernoites em Juiz de Fora e Manhuaçu. É um grande desafio para as crianças, e pra nós, tantas horas e dias na estrada. Tentamos viajar em horários em que sabemos que vão dormir pelo menos por algum período. E sempre de dia, pois não conhecemos as estradas e não queremos correr o risco de que algo aconteça durante a noite.

Lemos, comemos, cantamos. Mas muitas vezes nada disso adianta e temos que parar por algum tempo. Ou eu acabo pegando Lolo no colo para que ela consinta em seguir mais um pouco até nosso destino daquele dia.

Lolo apreciando a paisagem

Próximo a Aimorés. Parada estratégica na estrada de terra

Chegamos no Instituto Terra na hora do almoço e fomos surpreendidos por um lindo jardim florido e construções em madeira e alvenaria amplas e de bom gosto. Parte das construções foi feita sobre o antigo curral, aproveitando as cercas originais.


Construção sobre antigo curral

Ficamos em uma casa com seis suítes, sala, ampla varanda que dava para um lago. Tudo cercado pelo incrível jardim. Já de início vimos um quati andando pelo quintal dos fundos.

Fundos da casa que nos abrigou

No jardim ao redor do nosso alojamento

Brincando perto do lago

Fomos acolhidos por pessoas simpáticas e atenciosas. O Instituto Terra tem cerca de 72 funcionários entre administrativo, pesquisa, projetos e pessoal de campo. São 709 hectares, sendo 609 reservados à Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) e 100 à sua sede.

Em pouco mais de 15 anos já foram plantadas mais de 4 milhões de mudas na área da RPPN. O que antes era pasto, agora é mata. Ainda há partes a serem reflorestadas. 

Com o reflorestamento muitas espécies animais voltaram à região. A começar pelos quatis. Mas também cobras, aranhas, escorpiões. Vimos diversos pássaros de diferentes cores e cantos. E borboletas. E jabotis. Até um tamanduá de colete já foi visto por lá. 

Encontramos jabotis no último dia

Há um viveiro com capacidade para 700 mil mudas e planos de ampliação para 5 milhões no futuro.

Ali está o único cine teatro de Aimorés. Aliás, a fazenda é colada à cidade e recebe visitantes que passeiam em seus jardins diariamente.

Há pelo menos outros dois prédios de alojamentos coletivos e um refeitório com cozinha em que fizemos a maioria das refeições durante nossa estadia.

Aguardando o refeitório abrir as portas


Há ainda o NERE – Núcleo de Estudos em Recuperação Ecossistêmica, que abriga também entre 20 e 30 estudantes bolsistas que residem por lá durante um ano. Seu curso é 80% prático e 20% teórico. São alunos do ensino técnico, em geral vindos de Minas, Rio e Espirito Santo. Dois deles nos acompanharam na trilha institucional e depois na trilha dos quatis que fizemos com as crianças.

Trilha institucional

Trilha dos quatis

Observando uma voçoraca feita pelas águas da chuva

O Instituto Terra já recuperou mais de 1000 nascentes na região, e todas as nove nascentes de sua sede. Com o projeto Olhos D’água, têm ajudado produtores rurais a reflorestar e recuperar suas nascentes.

É tão sério o que acontece no Brasil com a água. Um país que tem cerca de 13% da água doce do planeta, mas que mata seus rios poluindo-os, retificando-os nas áreas urbanas, desmatando as matas e florestas que os mantém vivos e às suas nascentes. As chuvas e a água vêm acabando. Já sentimos isso na pele, e o crescente mercado de água engarrafada é apenas mais um sintoma.

O próprio Rio Doce, cuja orla podia ser vista da cidade de Aimorés, já não passa mais por lá. Suas antigas margens estão secas em razão de desvio e represamento. Sem falar dos efeitos do chocante acidente de Mariana sobre sua bacia.

"Orla" do Rio Doce em Aimorés

Os rios são nossa esperança de sobrevivência nesse planeta, e não há rios sem matas e florestas. Daí a importância de um projeto como esse e de que outras iniciativas nele se inspirem.

Passeamos um pouco pela cidade de Aimorés, cortada pela linha de trem. Sobre a linha, em determinado ponto, foi construída uma passarela que imediatamente atiçou a curiosidade de Miguel. Sem muita animação concordei em acompanhá-lo na travessia sobre a ferrovia e qual não foi minha surpresa ao vivenciar tamanha diversão! As crianças sabem mesmo das coisas!







Numa pequena praça, em frente à estação de trem, brincamos mais um pouco antes de ir à feira semanal da cidade que acontece às 6as feiras à tarde e segue noite a dentro. Tudo sob um calor de 35 graus à sombra.




A temperatura na Fazenda Bulcão é pelo menos 2 graus mais baixa que a da cidade de Aimorés. Que se plantem muito mais árvores! 

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