terça-feira, 8 de maio de 2018

Te libero 

Ontem* tive um insight. Entendi que quero que Miguel seja amado. Que quero que ele tenha relações e se comporte de modo a que todos o amem. Mas eu quero isso pra mim. Eu é que sou assim. Não sei se ele é assim. Talvez ele não esteja nem aí se vão amá-lo. Se vão aprová-lo. Ele quer ser ele. Fazer o que ele sente. Ser leal aos seus sentimentos e pensamentos. 

Te libero filho para ser você. Pra seguir suas necessidades e não as minhas. Te libero das minhas crenças. Das minhas limitações. Dos meus medos. Te deixo ser quem você é. O que você é. O que faz sentido pra você. O que te conecta com sua essência. 

Vai filhote, ser Miguel na vida!

*escrevi esse texto no dia 5.5.2018

domingo, 6 de maio de 2018


MAIS A CADA DIA


Era 11 de abril de 2018. Brincávamos no quarto das crianças. Na verdade estávamos arrumando a bagunça, guardando brinquedos. 

Miguel começa a olhar uma carta de Pokémon. Noto que está tentando ler. E lê a palavra VENENO. Do seu jeito mas lê. 

Depois lê outra palavra. Que emoção! "Filho, você leu! Você está lendo!" E está mesmo. Aos poucos, mas mais a cada dia. 

Uma chave virou. Uma porta se abriu. E lá vai ele, juntando as letras. E é incrível. Incrível! Que alegria estar perto, junto, pra ver isso. Sou grata!



domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sobre uma dor de ser mãe

Sono. Cansaço. Ainda cansada desse entra e sai em casa. De tanta troca com outras famílias, outras pessoas. De manter o bom humor, a simpatia. De agradar. De ser amável, solícita. De cuidar da casa. De cozinhar. De receber. Me dei muito nas últimas semanas. Ansiando por silêncio e calma. Por solidão. Essa solidão da qual fugi a vida toda. Pela qual me atraio cada vez mais. Me firmo nela quanto mais me firmo em mim, em quem sou, no que de fato quero. 

Quero cada vez mais dentro e menos fora. Cada vez mais introspecção. Não me reconheço. Meu filho. Miguel. Causa e consequência dessa transição. Ele que é tão pra fora, tão externo, que evita o tédio a todo custo e também a solidão. Com quem aprendeu senão com a mãe. Filho amado. Como acertar? Como respeitar? Como respirar antes de agir com você? Como fugir do automatismo e ser empática, e te acolher, e acolher seus sentimentos, suas reações, suas explosões. 

Filho amado. Te quero tanto. Te sinto tão distante, tão desconectado de mim, tão desesperado por emoções, por prazeres efêmeros. Como posso te ajudar? Como posso me ajudar? Quero me ajudar pra poder te receber melhor. Te acolher melhor. Te abraçar. Te olhar nos olhos. 

Saudades de você, amor, de te amar incondicionalmente. De te ter como impulsionador das minhas mudanças. E você é. Ainda é. Segue sendo meu grande guia. Te sigo. Quero aprender com nossa relação. Quero não mais te ferir. Não mais te magoar, não deixar marcas em você. Sua frustração é minha frustração. Não te quero frustrado e fico colocando camas elásticas pra você cair. E mesmo assim você se magoa, não vê meu esforço, não vê que poderia ser pior. Filho. Quero reconhecimento, será? Que quero?Não vou ser capaz de amornar sua frustração, de amortecê-la. Só posso te acolher. A frustração é. Será. Sempre. Sempre será. Conviva com ela. Eu tenho que aprender a conviver com ela. A aceitá-la. A enfrentá-la. 

São seus dias. E são só dias. Dias que desaparecerão. Dos quais você não se lembrará. Mas são seus dias. E as marcas podem sim te acompanhar pra sempre. Filho. Quero tua alegria, mas onde está a minha alegria de viver? Quero teu entusiasmo, mas onde o meu? Quero aprender. Contigo aprendo. Sigo aprendendo. Amor, tem tanto amor pra você, tanto amor por você. Te quero filho amado. Que possamos nos encontrar, nos abraçar, nos entregar. Sinto muito se te magoei. Você é meu grande amor. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017


Quem salva meu filho de mim?

Estamos sempre tensos, tesos, no tratar com nossos filhos. Mais eles crescem, mais tesos ficamos.

Seguimos todo tempo cobrando, exigindo posturas da criança. A relação vai ficando pesada.

Expectativas, controle, ter razão, ser atendidos em nossos pedidos, desejos, necessidades. Somos tão crianças quanto eles.

Vejo tanta injustiça quando ele grita com a irmã, quando bate nela. Não vejo razão para que ele se exaspere. Vou lá e o reprimo, o critico, digo como ele deve agir.

Mas quando grito com ele, o ameaço, o desrespeito, ajo com raiva, quem o salva de mim?

Não consigo compreender as atitudes dele, mas não consigo inibir as minhas do jeito que espero que ele o faça.

Quantas armadilhas!

Como sair da situação e ser uma observadora? Como ser uma observadora da minha relação com meu filho da mesma forma que sou uma observadora da sua relação com a irmã?

Nos primeiros minutos do dia, após o abraço e a troca de carinho iniciais, já estamos em pé de guerra. As ações dele são reações há tanta pressão e desrespeito que sofreu. Ele não é mais dócil, Está totalmente na defensiva. E se defender é atacar.

Aí me sinto atacada, revido, e já iniciamos um ciclo vicioso que é também uma bola de neve: crescente na violência, na raiva, nas reações agressivas.

Como parar, como girar a roda para o outro lado?

Eu sou a adulta. Eu tenho mais condições, nesse momento de nossas vidas, de virar o jogo. Aliás, fui eu quem o comecei.

Mas as emoções, o automático, a raiva, a fúria, são mais rápidas.

Brecar. Parar. Respirar. Deixar ir, Deixar ser. Palavras chaves.

Sei que a única pessoa que pode salvá-lo de mim, sou eu mesma.

Por enquanto, percebo. Escrever é uma forma de jogar luz sobre essa relação. É o que tenho, e posso, agora.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Mosaico de mim



Há seis anos iniciei uma viagem sem volta pra dentro de mim. Esse foi o principal efeito da maternidade. Essa avalanche me fez olhar cada vez mais profundamente para o meu interior.


Sempre fui uma pessoa para fora, para o mundo, para as relações, para os outros. Ter um ninho, uma casa, cuidar do dentro, acolher-me, tudo isso sempre esteve fora do meu campo de interesse e de ação.


Por isso, também, minhas referências sobre como conduzir minha vida sempre foram externas, vieram de fora, do outro, do que me parecia, sempre aos olhos dos outros, o melhor, o ideal a fazer naquele momento, o que está na moda, o que é pop.


Minhas referências internas, em algum momento provavelmente da infância, desapareceram, foram sabotadas, escondidas, subjugadas, abafadas, menosprezadas.


Nessa viagem que empreendi, inicialmente contra a minha vontade, venho compondo esse mosaico de mim mesma, descobrindo padrões, crenças, automatismos, modos de agir. Sobre um único fato da minha infância, a cada retorno, descubro uma nova causa, ou uma nova consequência. São tantas nuances sobre como funciono e o porque das minhas escolhas e maneiras de agir.


As ferramentas que tenho podido acessar me auxiliam na descoberta desse universo desconhecido que sou eu. Às vezes me sinto numa espiral em que as mesmas questões sempre voltam, mas de forma mais refinada. Estou sempre passando pelo mesmo lugar, ainda que de outra maneira.


A chave que se me abriu nesse momento de forma tão clara é o quanto sempre busco no outro todas, absolutamente todas as respostas. Uma falta de confiança na minha capacidade de avaliação e decisão que me levam a seguir o fluxo do que me parece ser o melhor a fazer aos olhos dos outros.


O que é ser bem sucedido nesse momento? O que é ser in? O que me torna uma pessoa interessante e bem quista aos olhos daqueles que estão no meu entorno, a quem admiro ou quero, de alguma forma, conquistar?


Tudo isso para preencher um vazio antigo e, talvez, eterno, uma carência extrema de amor, de ser amada, de ser querida, desejada, valorizada, admirada. Claro, sempre pelo outro.


Estratégias de funcionamento que descubro e pelas quais tantas vezes me envergonho.


A clareza que acessei ontem é também uma chave para uma insatisfação crônica que me acompanha desde sempre. É mais uma peça desse mosaico que venho descobrindo e que sou eu. Sou. E sigo.

segunda-feira, 13 de março de 2017

SLOW LIFE

Em janeiro nos mudamos pra Piracaia. Uma das razões é estar num lugar com menos pessoas, mais perto da natureza, longe da energia das cidades que dão a sensação de que o tempo voa e as coisas boas da vida se perdem nos afazeres sem fim, no trânsito, nas filas, nos inúmeros compromissos, na agitação do dia a dia.

Demoramos um mês para desencaixotar. Minha ansiedade me pressionando, como se precisasse tirar tudo das caixas, guardar nos devidos lugares, deixar arrumado, organizado para, então (e finalmente), a vida começar.

Mas a vida é cada momento. É também desencaixotar. É também ter coisas em caixas a serem desfeitas quando for possível.

Só que pra mim, não. Estou sempre anotando minhas pendências, olhando as coisas por fazer, angustiada com o que falta, planejando o dia, a semana, o mês, o ano... ufa! Assim não tem lugar em que a tal “energia de cidade” não me pegue, porque essa energia está em mim!

Me dei conta disso numa terça feira, às 10h da manhã, quando terminávamos o café da manhã. Lamentei que já fosse “tão tarde” e Tiago me lembrou que nosso movimento não é só slow food, mas slow life! Pressa pra que? Correr pra que? Pra morte? Pro fim da vida? Pra se aposentar e, então, viver, curtir a família, estar com os bem amados? Ora, estamos fazendo isso agora, no auge da nossa “força produtiva”. Que benção! Que alegria poder terminar o café da manhã com os filhotes, em plena 3ª feira, às 10h da manhã!

A verdade é que estamos programados pra ser eficientes. Pra cumprir tarefas. Pra sermos produtivos. Notei que sequer me permito sentar na tão sonhada rede e descansar.

E não tem ninguém me cobrando, me julgando, me criticando, a não ser eu mesma, meu julgador interno que fica o tempo todo querendo mais, insatisfeito com o que já conseguimos, cego mesmo pras mudanças e conquistas feitas.


Mudar é um longo aprendizado. Não basta mudar de vida, de cidade, de ideias, de crenças. A mudança é interna, é um desconstruir-se diariamente. Ter consciência é apenas um dos passos nessa jornada.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Cidades

Os lugares que escolhemos para visitar, nessas duas longas viagens que fizemos, são em geral lugarejos, comunidades, pequenas vilas. 

Espaços onde ser humano e natureza estão integrados, ou mais integrados que nos centros urbanos. Onde nos conectamos com os ciclos da lua, convivemos bem de perto com muitos tipos de insetos, pisamos na terra, reformulamos nossos critérios de conforto, flexibilizamos nossas exigências de limpeza.

Nesses lugares as crianças brincam soltas, estão livres para se arriscar, para gastar toda sua energia, para desafiarem seus próprios limites, explorarem sua curiosidade. Elas estão também em ambientes mais harmônicos para os sentidos porque a natureza traz essa harmonia. Ouvir, ver, cheirar, degustar, tocar. Tudo é mais agradável, menos brusco ou invasivo, mais leve e agradável.

Mas durante nossa viagem muitas vezes pernoitamos em cidades ou paramos por alguns dias para visitar amigos ou parentes em centros urbanos. Ali os ruídos são intensos e intermitentes, a noite é clara, não escurece de verdade, os odores nem sempre são agradáveis, no mais das vezes há poluição visual, sonora e do ar.

É notável a diferença no humor das crianças e na intensidade e quantidade de conflitos entre nós e elas.

Passamos cinco dias na casa de uma amiga muito querida em Diamantina, entre nossa estada em Araçuaí e Lapinha da Serra. Seu marido estava fora mas contamos com a companhia de sua adorável filhota de quatro anos.

Estávamos exaustos depois de quase um mês na estrada e precisávamos de um tempo em casa. Essa família mora em uma casa com quintal, mas também com televisão e as crias acabaram ficando bastante tempo na frente da tela.

E quando iam brincar, hora ou outra os conflitos se tornavam insuportáveis para nós que estávamos justamente precisando de descanso e fugindo da intensa conexão que vivemos com elas nos dias anteriores.

Então, depois de dois dias enfurnados em casa, fomos para Curralinho, uma pequena vila perto de Diamantina, fofa que só, com uma represa linda! Foi um bálsamo! As crianças voltaram a brincar livres. 

Paradoxalmente, aquele baita espaço ao ar livre é ultra acolhedor. Elas ficam tranquilas, os conflitos se reduzem, as opções são infinitas.


Brincando na Represa de Curralinho

Miguel e Valentina explorando as pedras e desafios naturais

Ales e Valen indicando o caminho

Passeando por Curralinho

Com a igrejinha ao fundo

Em outro dia fomos para a vila do parque estadual de Biribiri e mais relaxamento, risadas, conexão, alegria, prazer em estar junto.

Vila do Biribiri: almoço delícia sob as árvores

Criançada solta

Relaxados


A natureza também tem efeitos sobre nós, claro, e podemos estar mais serenos pra estar com as crianças e lidar com nossos conflitos internos e externos.

Escrevo do Rio de Janeiro[1], grande centro urbano onde mora a querida irmã do Tiago. Estamos super bem acomodados em seu apartamento, numa charmosa rua de Laranjeiras e com uma praça bem em frente ao prédio, frequentada por crianças de manhã e no fim da tarde.

Mas nossos filhotes estão muito mais irritados. Os conflitos são constantes e intensos, entre eles e conosco. E todo o tempo pedem por filminhos ou pelo celular, e mais conflitos pra negar. Nós também estamos mais cansados, menos flexíveis, com menos paciência.

Mesmo quando saímos às ruas, os ânimos não se arrefecem. É tanto estímulo para o consumo supérfluo e para coisas que fazem mal à saúde. É tanto “não” e “não pode”. É tanta negociação, que fica tudo pesado e cansativo.

No fim do dia estamos todos exaustos, crianças e adultos, muito menos disponíveis para a empatia e o cuidado. Nos desrespeitamos mais, erramos mais, sentimos mais culpa.

Observar essa dinâmica e fazer a relação com a proximidade da cidade e a distância da natureza tem sido uma grande chave pra mim e pras buscas que temos empreendido, confirmando nossas escolhas.







[1] Esse texto foi escrito cerca de duas semanas antes de sua publicação.