quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mamar e desmamar

Miguel nasceu numa 6a feira. Meu leite desceu na 2a. Na 3a ele desaprendeu a mamar.

Foram dias terríveis, com idas e vindas a pediatras, fonoaudióloga, visita de especialista em amamentação, até que ele reaprendesse a mamar, uma semana depois.

Chorei loucamente nesses dias. Ele também, de fome.

Tempos depois pude entender: esse episódio me trouxe para a maternidade. Foi preciso que meu bebê não se alimentasse para eu me desligar do mundo externo e me voltar para o interno. Inicialmente tratei o nascimento como mais um fato da vida, vida essa que deveria seguir do mesmo modo, cheia de amigos, visitas, eventos sociais, compromissos.

Mas a maternidade requer conexão, silêncio, estar a sós, conhecer-se com profundidade, regar o amor, entregar-se. Foi o que meu filho me fez ver e viver.

A amamentação passou a ser nossa principal forma de conexão. E virou um pouco a minha muleta. Tudo se resolvia com ela.

Logo descobrimos o tumor do Tiago e houve uma reviravolta no puerpério. As atenções se voltaram para a cirurgia e tratamento e mais uma vez a amamentação desempenhou papel fundamental para que eu pudesse segurar a onda.

Minhas questões alimentares, meu medo de não conseguir alimentar meu filho, apropriar-me do cuidar e do fazer o alimento, retardaram muito seu interesse e necessidade de comer. Só com um ano e meio a alimentação se estabeleceu de fato.

E mais uma vez a amamentação nos salvou, me deu tempo para me sentir segura com o tema da comida e manteve Miguel saudável.

Por mais de um ano ele acordou seis, sete, oito, DEZ vezes à noite pra mamar. E sempre mamou intensamente durante o dia. Comecei a me cansar, a me incomodar.

Tentativas inicialmente bem sucedidas de reduzir as mamadas noturnas logo desandaram.

Precisei de tempo e força para colocar limites nas mamadas diurnas. Há poucos meses, depois da “farra do peito” em que as festas de fim de ano se transformaram, tive forças para reduzi-las a quatro por dia.

Mesmo assim me sentia esgotada e o desejo de desmamá-lo aumentava.

Me dei conta de que o desmame gradual não funcionava mais. Chegara no meu limite.

Todas as mamadas remanescentes eram importantes, esperadas e desfrutadas por ele. Cada vez mais eu cedia um “golinho” aqui, outro acolá, fora das mamadas já delimitadas.

Então, depois de prepará-lo por alguns dias, domingo, 18/5, foi o último dia do “mamá”.

Segunda foi um dia duro. Miguel fez cocô três vezes. Defecar é uma forma de liberar a tensão. Está também relacionado ao sentimento de medo.

À noite ele chorou muito. Havia revolta, tristeza e frustração. Pediu muito pra mamar. Eu e meu marido choramos também.

Nomeei seus sentimentos de raiva, tristeza e frustração pelo fim do “mamá”. Acrescentei que pra mim já não dava mais, que estava cansada, que ele é um meninão, que ninguém mama pra sempre, e que esse era o limite da mamãe. E que o amava muito, que ele é meu filho amado e que podemos nos amar e nos conectar de muitas outras formas.

Na 3a feira Miguel acordou resfriado. Foi mais um dia difícil. Muitos “nãos” afirmados por ele. E muitos pedidos para mamar.

À noite Tiago dormiu com Miguel. Foi uma decisão sua. Miguel queria dormir comigo e eu prontamente concordei. Culpa. Mas Tiago disse que não, era a sua noite e ele queria e iria assumir esse papel. Quanta gratidão pelo meu marido.

Foi maravilhoso. Eu descansei. Miguel chorou pouco, quase não acordou. Pela manhã chorou mais, pediu muito. Ficamos abraçados, fiz muito carinho nele, reconheci seus sentimentos, o amei muito. Ele se acalmou, dormiu mais um pouco.

Dócil pela manhã, porém, na hora habitual da soneca da tarde fez-se um grande luto. Ele chorou, se feriu propositalmente, fechou-se no banheiro, chorava, abria a porta para ver se eu o velava do lado de fora, pedia pra eu abrir a porta, não me deixava entrar, chorava.

Fomos para seu quarto. Chorou mais. Agressivo. Queria me bater. Queria se bater. Foi duro. Aguentei firme. Lado a lado. Acolhimento.

À tarde, novo choro. Saímos e ele caiu muito, estava muito vulnerável.

Porém, na hora de dormir, deitamos juntos, lemos. Ele bebeu água, revirou-se pra cá, revirou-se pra lá. Dormiu. Não pediu pra mamar.

Filho forte. Vivendo intensamente sua primeira grande perda. Estamos do seu lado, aprendendo que as pessoas têm limites. Eu tenho limite. A mãe tem limite. Ele já pode reconhecer seus limites.

Também tive dúvidas. Seu choro me doeu muito. Lembrei-me de ler que há culturas em que é inconcebível deixar um filho chorar. E eu ali, fazendo meu filho chorar. Mas depois compreendi que não o estava deixando chorar. Coloquei um limite meu, que preciso reconhecer e validar. Isso o frustrou, feriu. Mas eu o acolhi. Fiquei ao seu lado.

E pude perceber que agora somos nós, não existe mais o “mamá” entre eu e você.

3 comentários:

  1. Oi Clarissa,
    Muito bonito seu texto! Os limites aparecem mesmo a todo tempo na construção de uma família. E vamos ajustando nossos limites e amando muito. E vamo que vamo!! Um beijão pra vc e pro Miguel :)

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  2. Clarice,
    Senti a sua perda e angústia. Como tudo seria mais fácil se já pudéssemos sentir o conforto que o passar do tempo nos dá, assim que as grandes dúvidas aparecem. Por outro lado, se assim fosse, não cresceríamos na nossa essência. Portanto, parabéns pelo aprendizado.

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  3. Cla, muuuito obrigada por compartilhar essa história. Eu me emocionei muito lendo la. Estou querendo fazer o destete do Luar e... Ai é duro. Sinto muita tristeza. Tavez tenha que passar por ai meu trabalho de desapego. Não sei. Estou cansada. Mas parece que não posso sutener esse vacio. Meu vacio... Buf abrazote amiga

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